14.4.20
4.4.20
Quarentena 2020
- Mãe, você está com muita falta de calmice. A gente não está desobedecendo de você, eu e a Ceci só estamos muito energéticos.
18.2.20
29.10.19
Passeio no Largo
Um largo é uma rua que se alarga e vira praça ou uma praça alargada por onde passa uma rua?
Largo é
um andamento musical, uma indicação de um tempo mais lento da música clássica,
que deve ser tocada de forma grave.
Não há vento, só ar. Não faz calor nem frio.
Estou sentada num banco verde. Um banco com o encosto
quebrado como todos os outros bancos desse Largo. Mais adiante, ali na esquina,
há um outro banco, laranja, de uma outra espécie, desses em que guardamos
dinheiro. Engraçado pensar em várias espécies de banco e várias espécie de
largo. Certamente no banco em que me encontro não há dinheiro, está
quebrado. Estou sentada num banco verde, cor de folha, feito de madeira.
Respiro lentamente e concluo de forma grave,que,
a essa hora da manhã, o humor fica um pouco sem graça.
Essa rua é só de ida ou só de volta. Depende que sentido você queira dar.
Para cima: verde, marrom, branco, um pouco de cinza, um pouco de
azul. Vejo árvores, palmeiras, nuvens um pouco carregadas, um pouco de céu. Enquanto observo, uma mulher passa e me olha, como quem indaga: “o
que você está fazendo aí?”
Para a direita: passa Jardim Botânico - Horto,
passa Gávea – Puc, passa o Metrô na Superfície
Para a esquerda: aparelhos de uma academia de
ginástica ao ar livre. Na contramão: Botafogo.
Para baixo: pedras portuguesas branco-sujo.
Resto de flores amarelo-ouro que caíram. Folhas secas, terra com buracos,
verdes e marrons.
As cores se repetem.
O ponto de ônibus à minha frente interrompe meus pensamentos. Não desceu ninguém dessa vez.
Três pessoas esperam, escolheram o mesmo
sentido.
Duas mulheres
e um homem.
A primeira mulher sobe no ônibus.
Um homem e uma mulher.
O homem entra em outro ônibus.
Uma mulher sozinha.
Branca, de cabelos cinzas, veste uma blusa preta
e branca com uma estampa que imita as palmeiras que estão acima dela, mas ela
não nota. Carrega duas bolsas que não parecem cheias, uma no ombro direito,
outra no antebraço esquerdo, imagino uma daquelas balanças antigas, com pesos
diferentes que não se equivalem. Usa óculos. A flor vermelha de uma das bolsas
combina com a calça cor de vinho. O sapato é preto. Ela continua a esperar e
parece não ter pressa. Fica quase o tempo todo parada sem se mexer. Até que caminha
lentamente um, dois, três, quatro passos, faz sinal, sobe os três degraus do ônibus e some.
Ponto vazio. Resta só o barulho do motor.
Atrás de mim uma casa antiga, com uma varanda sem ninguém, recebe os primeiros raios de sol, que timidamente se esboçam por entre as nuvens cinzas dessa manhã sem humor.
Ponto vazio. Resta só o barulho do motor.
Atrás de mim uma casa antiga, com uma varanda sem ninguém, recebe os primeiros raios de sol, que timidamente se esboçam por entre as nuvens cinzas dessa manhã sem humor.
- O sentido é o mesmo todo dia, pego o mesmo ônibus, sigo numa linha só. Na volta pego dois ônibus, A linha está sempre cheia, quase não dá pra sentar, não dá pra descansar um pouco. Nem um pouco dá pra descansar. Mas o sentido não muda, é o mesmo todo dia.
O sentido é esse de viver, de enfrentar a vida,
de fazer comida e comer. O sentido que a gente faz todo dia é o sentido da vida
de cada um, não tenho nada com a vida de ninguém. A vida é dura pra uns, pra
outros é mais fácil. Acordo e faço meu sentido funcionar.
Sentido é uma palavra que vem de sentir, não é?
Ah, eu sou do sentir, mais do que do pensar, eu sinto muito. Sinto todo dia,
toda hora, é um sentir que não acaba mais. O sentido também não acaba, porque a
gente não para de sentir, só quando morre. Quando a gente morre o sentido acaba, então o sentido é
esse, viver, estar vivo é o sentido.
26.6.19
continuum
a gente não para de morrer desde o momento que nasce a gente não para de nascer até o momento da morte
4.6.19
8.4.19
Um pouco de graça para amenizar a tragédia
- Mãe, como está o governo do Bozonauro?
- Ah, tá horrível, filho. Muito ruim, péssimo.
- Ai minha Nossa Cenoura!!!
- Ah, tá horrível, filho. Muito ruim, péssimo.
- Ai minha Nossa Cenoura!!!
5.3.19
Um amigo novo
- Filho, como está sua nova turma da escola?
- Tá legal, mãe. Tem um amigo novo que é muito fazedor de engraçadices.
- Tá legal, mãe. Tem um amigo novo que é muito fazedor de engraçadices.
22.2.19
De repente, na hora de dormir
- Mãe, o que acontece quando a gente morre? A gente vai morrer e vai pra onde? A gente vai desaparecer? (começa a chorar)
- Calma, filho. Eu acho que a
gente não desaparece não, acho que a gente se transforma.
- Mas quando você morrer,
você vai pra onde? Você vai ficar longe de mim e eu nunca mais vou te ver?
(chora mais)
- Filho, eu vou estar sempre
com você, sempre!
- Não vai não! Quando você
morrer, eu não vou mais te achar e não vai ter ninguém pra cuidar de mim.
- Calma meu amor, não é
assim. Eu vou cuidar muito de você. E a natureza nos protege, protege todo
mundo. Cada um vai ter o seu tempo.
- Todo mundo vai morrer? Pra
onde vai todo mundo?
- Todo mundo morre e eu
não sei pra onde a gente vai. Mas eu sei que fica tudo bem, porque a gente vai se
transformando. Meu amor, não se preocupe com isso.
- Eu sei que a gente vira
estrelinha.
- Sim! A gente vira luz!
- Mas como eu vou te achar
quando você virar estrelinha, mãe, como? Estrelinha nem tem pé, nem perna, nem
olho, nem boca. Eu não vou te achar nunca mais!!! (chora muito)
- Filho, meu
coração, olha pra mim. Nós estamos ligados pra sempre através do nosso amor. E eu vou estar
sempre com você e você comigo. E a gente ainda vai viver muito e vamos fazer
muitas aventuras!
- Mas como é depois? Como é
que as pessoas fazem pra se encontrar?
- Filho, isso eu não sei. Só
sei que a gente se transforma e vira luz, vira estrelinha! E as estrelas se
comunicam de outras formas.
- Mas elas não sabem falar!
- Mas elas sabem brilhar!
- Elas mandam sinais?
- Sim! (gostando da ideia) Acho
que é mais ou menos assim.
- Mas e se vier um raio
fortão e destruir as estrelas?
- Os raios e as estrelas são
amigos. São feitos da mesma coisa, só que têm formas diferentes. Eles não vão
se destruir, eles gostam de brincar juntos.
- Mas e quando tem uma chuva
muito forte, a chuva pode acabar com as estrelas?
- Não, porque as estrelas
ficam beeem mais alto do que as nuvens que trazem a chuva. Quando chove, as
estrelas ficam encobertas pelas nuvens. Aí quando para de chover e as nuvens
saem do céu, as estrelas voltam a aparecer.
- Mas eu vou acabar quando eu
for virar estrelinha? Eu não quero morrer, eu não quero acabar!!! (volta a
chorar)
- Meu amor, você não vai acabar,
você ainda vai viver muito.
- Mas e se você morrer e eu
não te encontrar mais? E se quando eu morrer e virar estrelinha, eu não te
achar? Como é que eu vou te achar, mãe?
- Meu amor, isso é um mistério,
mas a natureza sempre sabe o que faz. Confia na natureza e confia no nosso amor,
que a gente vai se encontrar... (ele continua chorando, eu não sei mais o que
dizer) ... Você estava da minha barriga e nasceu! Então vc me achou, viu?
- (Ele para de chorar) Então
depois que a gente vira estrelinha, a gente vira semente? E aí entra na barriga
das mães?
- É mais ou menos assim... Eu
acho que gente vai se transformando... é um ciclo.
- Depois começa tudo de novo?
Mas como? E se a gente nascer bicho, se a gente nascer árvore? Como eu vou
achar você de novo?
- A gente vai saber.
- Como?
- Agora eu também não sei como é,
filho. Mas a gente vai descobrir quando a gente souber falar a língua das
estrelas. Aí a gente vai entender tudo isso.
- Mas eu não quero me separar
de você.
- Tá bom, então vamos
combinar que a gente nunca vai se separar. Eu vou estar sempre com você.
- Quando eu virar estrelinha,
eu vou ficar brilhando do seu ladinho. E também vou virar semente e entrar na
sua barriga de novo.
- Combinado, filho. Agora
vamos dormir e pensar em coisas bem lindas e brilhantes e pensar no nosso amor
que é maior do que o infinito.
- Boa noite, mãe. (me beija e
abraça forte) Te amo, mãe.
- Te amo tanto, filho! Sonhe
com os anjinhos e com os peixinhos.
15.2.19
Notícias de um Brasil
Saia da sua zona de conforto, pare de relativizar o horror, leia qualquer livro de #achillembembe, faça um esforço, mataram mais um garoto negro por nada, semana passada executaram 13 pessoas numa chacina em Santa Tereza, policiais de elite mirando, atirando e matando nas favelas cariocas com aval do governador, uma menina morreu com tiro no peito, isso acontece o tempo todo nas comunidades, pessoas inocentes morrem, ministro da justiça propõe excludente de ilicitude para policiais, pessoas comemoram com alegria mórbida dizendo menos um cpf, isso não é política de segurança, isso é política de extermínio, não negocie o inegociável, isso não é normal.
12.2.19
Para Saja
Eu tinha uns 17 anos e era uma adolescente como tantas outras, confusa, inquieta, que queria mudar o mundo, queria comer o mundo, queria ler todos os livros e saber de todas as coisas. Estava começando a fazer teatro profissionalmente, quando fui chamada para participar de uma peça sobre Hipácia, uma mulher brilhante, filósofa, que foi assassinada na biblioteca de Alexandria. O diretor também era um filósofo e já nos primeiros minutos do nosso primeiro encontro parecia que já o conhecia há milênios. Saja era um homem cultíssimo, doce, brincalhão, com uma visão de mundo ampla e cheia de vigor. Naqueles meses de intensa convivência, ele virou não só meu diretor, mas também professor, amigo, meio pai, meio irmão mais velho. Eu estava descobrindo um mundo que finalmente fazia sentido e Saja elevava a existência a última potência. Ele me desorganizava pra que eu me reorganizasse. Naquela época não sabia que sua influência, suas referências, determinariam os próximos passos da minha vida. Depois de um tempo, saí de Salvador e nunca mais nos encontramos de novo. Hoje soube da sua passagem e estou chorando compulsivamente porque viver é muito difícil. Morrer também. Ainda sou aquela adolescente. Ainda quero mudar o mundo e procuro incessantemente ampliar minha visão da existência e potencializar a vida, como ela merece ser vivida. Porque a vida é rara, porque é uma só, porque não tem ensaio. E sofro, sofremos todos, porque o mundo também pode ficar bem medíocre e eu me nego a essa estreiteza. Obrigada Saja por tudo que aprendi com você, pelo nosso encontro. Que pena que não pude dizer isso tudo olhando nos seus olhos e te dando um abraço. Que honra ter encontrado você, um mestre. Que você encontre a luz mais pura, que é disso que somos feitos, você sabe. Luz. Luz. Luz pra você, Luz pro Boechat, pro Caio, pros meninos do flamengo, do Vidigal, da Rocinha, do Rio de Janeiro, de Brumadinho, Luz para as mentes do nosso país. E vamos combinar de ninguém mais morrer, porque nosso coração já não aguenta mais. Obrigada, meu querido Saja, siga em paz.
1.1.19
29.11.18
Oportunidade única
- Leisure and Shopping, bom dia. Em que posso ajudar?
-
Eu gostaria de saber mais informações sobre Cultura? É nesse departamento?
- O quê?
- CULTURA.
- Desculpe senhora, não ouvi direito.
- Cul-tu-ra.
Culture. Multiculture.
- Ah, claro. Um momento (musiquinha). Desculpe, senhora,
não consta em nosso material.
- Será que não está na seção de eventos? Cultural Events?
- Vou verificar. Um momento, senhora. (musiquinha)
Também não consta
nada nessa seção, senhora. Já tentou no Funeral Services?
- Como?
- Tudo que é congelado, destruído, descartado, nós mandamos pra lá, senhora.
É um departamento muito bom, senhora, que está crescendo muito.
- Bem... você pode me
transferir, por favor?
- Claro, é um prazer atendê-la. Só um momento (musiquinha).
- Funeral Trade Center em que posso ajudar?
- Eu gostaria de saber
sobre Cultura. Culture.
- Desculpe, senhora…pode repetir.
- Culture.
Multiculture. Education. Art. Culture and Art.
- Ah, Arte! Sim, adoro arte! A senhora é
artista?
- Sim.
- Muito prazer em atendê-la. Adoro falar com os artistas, são
tão divertidos!
- Que bom.
- É por isso que eu amo o meu trabalho. Sei que não vou me aposentar nunca, mas não importa porque esse trabalho me proporciona oportunidades incríveis. Estou falando com uma artista, uau. Vocês também amam o que fazem, não é?
-
Sim. Geralmente, sim.
- Que maravilha! Mas em que posso ajudá-la?
- Eu gostaria de
saber sobre os planos para Cultura.
- Já tentou no Leisure and
Shopping?
- Eles me transferiam pra vocês.
- Ah, sim, claro. Um
momento (musiquinha). Senhora?
- Estou aqui.
- Temos um plano muito bom
aqui. A senhora é Artist ou Artist Plus?
- Qual a diferença?
- O
Artist é mais popular, mais genérico, preços espetaculares. Sepultamento
rápido, mas com design arrojado. Já o Plus é feito sob medida, dá pra escolher
o modelo, a forma, até a cor. Para pessoas mais sensíveis, visionárias. O custo
benefício é muito bom. Recomendo.
- Você pode me mandar os dois planos por
email?
- Não trabalhamos com email, senhora, agora só What'sApp.
- Pode ser pelo What'sAap.
- Claro! Muito prazer em atendê-la, adoro artista. Obrigada pelo interesse e Good End.
- Oi?
- Good
End! Have a nice end. Tenha um bom fim. Essa é a saudação aqui no Funeral Services.
- E como eu
respondo? Um Bom Fim pra você também?
… … … Ué, desligaram.
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