21.6.17

Os buracos da eternidade

Queria abrir os buracos quando eu desejasse, mas eles não se abrem quando eu quero, eles não me obedecem, eles não são meus. Eu simplesmente caio neles, na maioria das vezes, quando estou distraída. Faço muito esforço e caio sempre por acaso.

14.6.17

Os passos

Tomo um chá e vou ao cinema. No caminho já sinto a estranheza. Pessoas se movendo em velocidades diferentes, tudo carecendo de sentido. Hoje estou tentando fazer literatura com minha vida e escrevo coisas canalhas. Mas não encontro nada nas palavras, que depois vou ler e achar ridículo.
Por que o filme não começa logo?
Quero ver o filme e entrar num mundo que não é o meu. Quero me esquecer. Minhas costas doem.
Quero ter alguma certeza. Não viver mais nessas horas vagas, quero ter o que fazer, pra onde ir, quem encontrar.
Os passos são lentos, dolorosos. Vem uma vontade estrondosa de empurrar as coisas. Pra depois.
As sementes foram plantadas na lama, em tudo que está úmido demais. Não crescem ainda. Tentam inromper, tentam brotar, custam, empurram, não são ainda. Estão querendo tornar, mas ainda não. E ainda dói, ainda é difícil, ainda não faz parte.
Os próximos passos. Os passos. As próximas horas. As horas.
Todos fazendo o mesmo. Todos batendo, cavando, sem descanso, contando com a sorte, com a fé, com o gênio.
Vou entrar no outro mundo pra ver se acho uma solução para a vida daqui.


9.4.17

Cada um do seu jeito

Sebá - Mamãe, guarda isso no meu ormário?
Ceci - Não é ormário, é AR-mário.
Sebá - O seu é armário, Ceci. O meu é OR-mário. 
Ceci - Mas o certo é armário.
Sebá - Cada um fala do jeito que quer, tem que respeitar, né?!

6.4.17

Conversa com Sebá aos 4 anos

- Mamãe, sabia que quem tem 4 anos já tem 5?
- Não.
- Foi meu amigo Chicão que me disse.
- E como é isso, filho?
- É assim ó: se eu já fiz 4 anos, então eu já vou fazer 5 anos. Aí, eu já tenho 5. Entendeu?
- Mas agora você tem 4 ou 5 anos?
- Eu já tenho 5 anos, né? Porque eu já fiz 4 anos. Agora você entendeu?

2.4.17

Experiência espiritual: Ficar em paz com a incerteza.

23.3.17

Frases do Sebá aos 4 anos

- Boa noite, meu coração!
- Boa noite, minha coraçã!

20.2.17

Carnaval tem todo ano

Eu digo que não estou animada. 
Que esse ano quero silêncio e sossego. 
Mas basta ouvir um batuque qualquer numa esquina,
que eu já me ofereço toda.

17.2.17

A menor ideia

Mãe - Qual vai ser a historinha hoje?
Ceci- Não tenho a menor ideia.
Sebá- Eu tenho a menor ideia! Deixa que eu escolho.

13.2.17

Não sabia não?

- Filho, o que você fez hoje no primeiro dia de aula?
- A gente jogou, desenhou e pinturou.
- Pinturou?
- É mãe, fazer pintura é pin-tu-rar. Não sabia não, é?

20.1.17

Eu gosto mais da ideia de ser uma escritora do que de ser uma escritora.

10.12.16

Conjugações contemporâneas

Eu acho
Tu acreditas
Ele curte
Nós temos mais de 100 likes
Vós odiais
Eles descordam

10.11.16

Comer Paris

Hoje: eu aqui sem imaginar o meu futuro. Querendo escrever o que ainda não sei. Olhando, esperando, pensando. A Torre Eiffel brilhando no meu lado esquerdo, ao longe. Tão clichê. Clichê é uma palavra francesa? Aqui se bebe muito vinho e se come muito bem. O frio me causa um certo desconforto. Estar com outras pessoas o tempo todo também.
Ontem: encontrei amigos em Paris. Não conhecia ninguém direito, mas são sempre as mesmas conversas. Sobre os outros.
Amanhã: ele está chegando. Amor, paixão, sexo e Paris. E eu cansada de olhar vitrines e pensar. De ver exposições e pensar. De consumir e pensar. Aproveitar Paris enquanto posso. Comer Paris, comprar Paris. 

10.9.16

Frase do Sebá aos 3 anos

Tem que ser um pouquinho muito e um pouquinho pouco, né mãe?

16.8.16

Assim é

Quando estava grávida, nas minhas duas barrigas, percebia pessoas, muitas pessoas, olhando pra mim com um certo desprezo (cuidadosamente escondido) e dizendo nas entrelinhas uma espécie de "coitada, vai acabar com a carreira" ou vai "atrapalhar a vida profissional" ou ainda, "para uma atriz é mais difícil, muda o corpo, muda tudo". E eu também estava cheia de dúvidas e conflitos (porque ficar grávida não é chegar no paraíso), apesar de ter desejado muito ser mãe. Eu tinha medo de "perder minha liberdade", de não viver mais a vida-lôka que eu tanto gostava, de me afastar dos amigos, de não ser capaz de cuidar, de não ter o dinheiro necessário, tive muito medo de perder oportunidades de trabalho, de viagens, etc, etc, etc. Curiosamente, também vejo o mesmo tipo de desprezo dirigido às mulheres que chegam aos 35, 40 e, por algum motivo ou desejo, não têm filhos. "Coitada, vai ficar sozinha na vida", "nunca vai saber o que é o verdadeiro amor", "não consegue", "deve ter algum problema", e por aí vai. Há cobranças peçonhentas por todo lado. E a vida mudando sempre, com ou sem filhos, porque assim é. A vida passa. Uma coisa eu aprendi: liberdade, a gente cria. E vida, a gente inventa. Tudo é criação.  

13.7.16

Conversa com Sebá aos 3 anos

- Mamãe, vamos fazer um incêndio?
- Quê???
- Aquilo que a gente fez ontem.
- Ah! Vamos acender um incenso?
- Sim! Pra casa ficar bem limpinha.

4.5.16

Corpo solto

Deitada, corpo solto no chão. Camadas do corpo físico - sangue, órgãos, esqueleto. Reconstituir para depois ir tirando. O sangue esparramado no chão, os órgãos saindo do corpo, o esqueleto flutuando. Então os ossos vão se soltando e se perdendo e sobra apenas uma memória. A memória do que já foi.

3.1.16

Resoluções para um Ano Novo

- Achar o lugar do reencontro; 
- Mudar a aparência por dentro; 
- Unir os pontos (cabeça, coração, pé no chão); 
- Viver numa escala maior; 
- Desdefender-se.

2.2.15

Mudanças

Você leu, em algum o lugar, aquela frase de Ghandhi e você pensa que quer ser a mudança que você quer ver no mundo. Você reduz drasticamente o seu consumo de carne e só come animais em ocasiões especiais. Você tenta diminuir o lixo que você produz e se frustra o tempo todo porque você consegue muito pouco. Você procura reciclar todo seu lixo. Você conversa com a síndica do seu prédio, você entra no site da Conlurb, você pesquisa em vários sites, você lê sobre o assunto. Você percebe que reciclar seu lixo é bem mais fácil do que você imagina. Você carrega uma sacola dobrável dentro da sua bolsa quando você vai às compras. Você recusa sacos plásticos e embalagens para presentes. Você recusa as segundas vias do cartão e todo o papel que você não ultizará depois. Você usa, na maioria das vezes, fraldas de pano no seu bebê. Você percebe, na prática, que não dá tanto trabalho assim. Você, inclusive, economiza dinheiro usando fraldas de pano no seu bebê. Você não quer mais ter carro, você quer andar a pé, de bicicleta, de transporte público e de taxi. Você não quer mudar para um apartamento maior. Você quer ter cada vez menos coisas, você acha que você já tem demais. Você está enjoada de tantos vestidos, tantos sapatos, tantas bolsas, tantos batons. Você acha que isso deve ser por causa da idade, mas você se dá conta que você já pensava assim aos vinte. Você não quer colocar silicone depois de ter amamentado seus dois filhos. Você se acha gostosa. Você ainda não colocou botox, mesmo já tendo passado dos quarenta. Você pinta seus cabelos brancos com henna. Você ainda não se acha bonita com cabelos brancos. Você detesta ir ao salão de beleza e evita isso a todo custo. Por conta dessas "excentricidades", você ouve sempre os mesmos comentários: Você é "louca", você é "hippie", você é "filósofa", você é "artista". Você não escuta, mas você é chamada de "ecochata". Ou só de chata mesmo. Você deve ser um pouco de tudo isso, você não se importa. Finalmente, você não se sente melhor do que ninguém. Você chora. Você também quer ser amada. Você duvida. Você se irrita com muita frequência. Você perde a paciência, você se arrepende. Você fala demais. Você ainda quer mudar o mundo. Você se acha uma idiota por isso, você sabe que o mundo muda sozinho. Você tem consciência que você é irrelevante para o mundo. Mas você continua tentando. Você gosta de viver.

21.1.15

No set

Fazer um filme é como estar dentro de um outro filme. Tudo parece um sonho. Todas aquelas pessoas ocupadas passando pra lá e pra cá, conversas de pé de ouvido, trilhos, fios. Paredes e portas que dão em lugar nenhum. Um universo inteiro sendo criado e destruído diariamente. Quando estou num set sempre acho que, a qualquer momento, Fellini vai aparecer falando alto, interrompendo a concentração, vai chamar os atores e refazer a cena dez tons acima. Imagino Truffaut sussurrando subitamente no meu ouvido, me lembrando da ilusão de tudo aquilo, me seduzindo e me deixando confusa, porque afinal de contas eu não entendo bem francês. Já vi Bergman algumas vezes levando as mãos à cabeça, como se tudo ali estivesse em desacordo. Desperto desses devaneios rindo de mim mesma e desconfiando ainda mais dessas fronteiras entre ficção e realidade. E mesmo estando ansiosa, nervosa ou simplesmente em pânico com a iminência do "Ação!", me sinto feliz por estar fazendo parte daquele mundo à parte, que muitas vezes é mais intenso que a própria vida.

18.11.14

Frases da Ceci aos 6 anos


- Mãe, agora eu vou escrever com letrinhas de mãos dadas.

21.9.14

Teatro templo

O teatro é o meu refúgio, meu templo, sempre foi. É pra lá que eu vou quando preciso pensar, respirar, dançar. Quando preciso diminuir o ritmo artificial da "realidade". Quando preciso parar, contemplar, ter clareza. Ele é exigente e me quer sempre inteira e humilde. Me quer sempre generosa, compassiva, atenta. Ele me exige loucura e graça. Coloca minha vaidade no lugar certo. E eu gosto.

20.9.14

Manual de fazer trança

- Mãe, sabia que eu já sei fazer trança no cabelo?
É só dividir em 3 capítulos e aí vai passando o cabelo, vai passando e passando e passando até formar uma trança.


18.4.14

Frases de Ceci aos 5 anos

- Mãe, sabe qual é o plural de hamburger? 
- Qual é?
- Xisburger!

2.6.13

Em 1 minuto:

- Apresente-se
- Exiba-se
- Desculpe-se
- Justifique-se
- Pergunte
- Implore

12.5.13

Enrolando pra dormir aos 5 anos

Vamos dormir filha, já é tarde.
- Não mãe, não é tarde, já é noite.

- Tá filha, então já está na hora de dormir.

- Mãe, o Cristo virou estátua?
- Não Ceci, fizeram uma estátua do Cristo.
- O Cristo existe?

- De certa forma existe filha, existe no coração de algumas pessoas.

- Ele já morreu?
- Já, há muito tempo atrás. Agora, vamos dormir filha.
- E quando a gente morre vira estátua?
- Não filha, é que o Cristo foi um homem muito importante, que ensinou muita coisa legal, por isso é que fizeram uma estátua dele.
- Mãe, vc sabia que quando a gente dorme, os ossos ficam grandes e a gente cresce muito?
- Sabia Ceci, por isso que a gente tem que dormir, já está tarde filha, boa noite.
- Porque que adulto não cresce?
- Porque já cresceu tudo que tinha pra crescer.
- Você não vai mais crescer?
- Não filha. Vamos dormir. Boa noite.
- Mãe, porque existe pessoas baixinhas?
- Porque sim Ceci, existem pessoas baixas, altas, magras, gordas, muitos tipos diferentes.  Eu mesma sou baixinha, filha.
- Não mãe, mas eu falando daquelas mais baixinhas do que você. Bem baixinhas.
- Você falando de anão?
- É. Anão da Branca de Neve?
- É, anão é uma pessoa bem baixinha. Igual aos da Branca de Neve.
- Sabia que eu já vi um anão?
- Ceci, vamos dormir.
- Hoje eu muito faladeira.
- E muito perguntadeira. Agora vamos dormir filha.
- Mendingo existe?
- Existe filha, mendigo é uma pessoa que não tem casa, não tem trabalho, não tem dinheiro, aí tem que morar na rua, é muito triste.
- Mendingo... medigo... Mindingo...midigo...mindigo ... E porque que o mendingo não pega um dinheiro e faz uma casa?
- Porque não é fácil pegar um dinheiro assim...
- Mas ele podia pegar só um pouquinho emprestado.
- Devia ser assim mesmo Ceci, todo mundo devia ter casa. Filha, agora vamos dormir. Boa noite, meu amor.
- Mãe, quando a gente vira estrela tem que ficar assim (mostrando com o corpo) com o braço e a perna assim aberto?
- Tem filha. Vem cá meu amor, vamos dormir agora,vem.
- Mas mãe, a gente vai cansar de ficar assim lá no céu e vai cair!!!
- (Rindo) Mas a gente não vai cansar não filha, quando a gente vira estrelinha, a gente fica leve, muito leve e nunca cansa.
- É verdade?
- ... 
- Sério mãe?
- É filha, a gente fica leve, leve ... e brilha o tempo todo.
- Aaaaaaah... Agora vamos dormir mãe, já é de noite.