8.4.19

Um pouco de graça para amenizar a tragédia

- Mãe, como está o governo do Bozonauro?
- Ah, tá horrível, filho. Muito ruim, péssimo.
- Ai minha Nossa Cenoura!!!

19.3.19

às vezes meu ouvido fica míope

17.3.19

Oportunidade única


- Leisure and Shopping, bom dia. Em que posso ajudar?
- Eu gostaria de saber mais informações sobre Cultura? É nesse departamento?
- O quê? 

-  CULTURA.

- Desculpe senhora, não ouvi direito.

- Cul-tu-ra. Culture. Multiculture.

- Ah, claro. Um momento…(musiquinha) Desculpe, senhora, não consta em nosso material.

- Será que não está na seção de eventos? Cultural Events?

- Vou verificar. Um momento, senhora. (musiquinha)
 Também não consta nada nessa seção, senhora. Já tentou no Funeral Services?

- Como?

- Tudo que é congelado, destruído, descartado, nós mandamos pra lá, senhora.
 É um departamento muito bom, senhora, que está crescendo muito. 
- Bem… você pode me transferir, por favor?

- Claro, é um prazer atendê-la. Só um momento. (musiquinha).

- Funeral Trade Center em que posso ajudar?

- Eu gostaria de saber sobre Cultura. Culture.

- Desculpe, senhora…pode repetir.

- Culture. Multiculture. Education. Art. Culture and Art.

- Ah! Arte!!! Adoro arte! A senhora é artista?

- Sim. 

- Muito prazer em atendê-la. Adoro falar com os artistas, são tão divertidos! 

- Que bom.

- É por isso que eu amo esse meu trabalho. Sei que vou me aposentar nunca, mas esse trabalho me proporciona oportunidades incríveis! Estou falando com uma artista, uau. Vocês também amam o que fazem, não é?

- Sim. Geralmente, sim.

- Que maravilha! Mas em que posso ajudá-la?

- Eu gostaria de saber sobre os planos para Cultura.

- Já tentou no Leisure and Shopping?

-Eles me transferiam pra vocês.

- Ah, sim, claro. Um momento. (musiquinha)… Senhora?

- Oi, estou aqui.

- Temos um plano muito bom aqui. A senhora é Artist ou Artist Plus?

- Qual a diferença?

- O Artist é mais popular, mais genérico, preços espetaculares. Sepultamento rápido, mas com design arrojado. Já o Plus é feito sob medida, dá pra escolher o modelo, a forma, até a cor. Para pessoas mais sensíveis, visionárias. O custo benefício é muito bom. Recomendo.

- Você pode me mandar os dois planos por email?

- Não trabalhamos com email, senhora, agora só whatszap, 
- Pode ser pelo whatszap.
- Claro! Muito prazer em atendê-la, adoro artista. Obrigada pelo interesse e Good End.
- Oi?
-
Good End! Have a nice end. Tenha um bom fim. Essa é a saudação aqui no Funeral Services. 

- E como eu respondo? Um Bom Fim pra você também?
 … … … ...
 Ué, desligaram.


5.3.19

Um amigo novo

- Filho, como está sua nova turma da escola?
- Tá legal, mãe. Tem um amigo novo que é muito fazedor de engraçadices.

22.2.19

De repente na hora de dormir


- Mãe, o que acontece quando a gente morre? A gente vai morrer e vai pra onde? A gente vai desaparecer? (começa a chorar)
- Calma, filho. Eu acho que a gente não desaparece não, acho que a gente se transforma.
- Mas quando você morrer, você vai pra onde? Você vai ficar longe de mim e eu nunca mais vou te ver? (chora mais)
- Filho, eu vou estar sempre com você, sempre!
- Não vai não! Quando você morrer, eu não vou mais te achar e não vai ter ninguém pra cuidar de mim.
- Calma meu amor, não é assim. Eu vou cuidar muito de você. E a natureza nos protege, protege todo mundo. Cada um vai ter o seu tempo.
- Todo mundo vai morrer? Pra onde vai todo mundo?
- Todo mundo morre, mas eu não sei pra onde a gente vai. Mas eu sei que fica tudo bem, porque a gente vai se transformando. Meu amor, não se preocupe com isso.
- Eu sei que a gente vira estrelinha.
- Sim! A gente vira luz!
- Mas como eu vou te achar quando você virar estrelinha, mãe, como? Estrelinha nem tem pé, nem perna, nem olho, nem boca. Eu não vou te achar nunca mais!!! (chora muito)
- Filho, meu coração, olha pra mim. Nós estamos ligados pra sempre através do nosso amor. E eu vou estar sempre com você e você comigo. E a gente ainda vai viver muito e vamos fazer muitas aventuras!
- Mas como é depois? Como é que as pessoas fazem pra se encontrar?
- Filho, isso eu não sei. Só sei que a gente se transforma e vira luz, vira estrelinha! E as estrelas se comunicam de outras formas.
- Mas elas não sabem falar!
- Mas elas sabem brilhar!
- Elas mandam sinais?
- Sim! (gostando da ideia) Acho que é mais ou menos assim.
- Mas e se vier um raio fortão e destruir as estrelas?
- Os raios e as estrelas são amigos. São feitos da mesma coisa, só que têm formas diferentes. Eles não vão se destruir, eles gostam de brincar juntos.
- Mas e quando tem uma chuva muito forte, a chuva pode acabar com as estrelas?
- Não, porque as estrelas ficam beeem mais alto do que as nuvens que trazem a chuva. Quando chove, as estrelas ficam encobertas pelas nuvens. Aí quando para de chover e as nuvens saem do céu, as estrelas voltam a aparecer.
- Mas eu vou acabar quando eu for virar estrelinha? Eu não quero morrer, eu não quero acabar!!! (volta a chorar)
- Meu amor, você não vai acabar, você ainda vai viver muito.
- Mas e se você morrer e eu não te encontrar mais? E se quando eu morrer e virar estrelinha, eu não te achar? Como é que eu vou te achar, mãe?
- Meu amor, isso é um mistério, mas a natureza sempre sabe o que faz. Confia na natureza e confia no nosso amor, que a gente vai se encontrar... (ele continua chorando, eu não sei mais o que dizer) ...  Você estava da minha barriga e nasceu! Então vc me achou, viu?
- (Ele para de chorar) Então depois que a gente vira estrelinha, a gente vira semente? E aí entra na barriga das mães?
- É mais ou menos assim... Eu acho que gente vai se transformando... é um ciclo.
- Depois começa tudo de novo? Mas como? E se a gente nascer bicho, se a gente nascer árvore? Como eu vou achar você de novo?
- A gente vai saber.
- Como?
- Agora eu também não sei como é, filho. Mas a gente vai descobrir quando a gente souber falar a língua das estrelas. Aí a gente vai entender tudo isso.
- Mas eu não quero me separar de você.
- Tá bom, então vamos combinar que a gente nunca vai se separar. Eu vou estar sempre com você.
- Quando eu virar estrelinha, eu vou ficar brilhando do seu ladinho. E também vou virar semente e entrar na sua barriga de novo.
- Combinado, filho. Agora vamos dormir e pensar em coisas bem lindas e brilhantes e pensar no nosso amor que é maior do que o infinito.
- Boa noite, mãe. (me beija e abraça forte) Te amo, mãe.
- Te amo tanto, filho! Sonhe com os anjinhos e com os peixinhos.

 


15.2.19

Notícias de um Brasil

Saia da sua zona de conforto, pare de relativizar o horror, leia qualquer livro de #achillembembe, faça um esforço, mataram mais um garoto negro por nada, semana passada executaram 13 pessoas numa chacina em Santa Tereza, policiais de elite mirando, atirando e matando nas favelas cariocas com aval do governador, uma menina morreu com tiro no peito, isso acontece o tempo todo nas comunidades, pessoas inocentes morrem, ministro da justiça propõe excludente de ilicitude para policiais, pessoas comemoram com alegria mórbida dizendo menos um cpf, isso não é política de segurança, isso é política de extermínio, não negocie o inegociável, isso não é normal. 

12.2.19

Para Saja

Eu tinha uns 17 anos e era uma adolescente como tantas outras, confusa, inquieta, que queria mudar o mundo, queria comer o mundo, queria ler todos os livros e saber de todas as coisas. Estava começando a fazer teatro profissionalmente, quando fui chamada para participar de uma peça sobre Hipácia, uma mulher brilhante, filósofa, que foi assassinada na biblioteca de Alexandria. O diretor também era um filósofo e já nos primeiros minutos do nosso primeiro encontro parecia que já o conhecia há milênios. Saja era um homem cultíssimo, doce, brincalhão, com uma visão de mundo ampla e cheia de vigor. Naqueles meses de intensa convivência, ele virou não só meu diretor, mas também professor, amigo, meio pai, meio irmão mais velho. Eu estava descobrindo um mundo que finalmente fazia sentido e Saja elevava a existência a última potência. Ele me desorganizava pra que eu me reorganizasse. Naquela época não sabia que sua influência, suas referências, determinariam os próximos passos da minha vida. Depois de um tempo, saí de Salvador e nunca mais nos encontramos de novo. Hoje soube da sua passagem e estou chorando compulsivamente porque viver é muito difícil. Morrer também. Ainda sou aquela adolescente. Ainda quero mudar o mundo e procuro incessantemente ampliar minha visão da existência e potencializar a vida, como ela merece ser vivida. Porque a vida é rara, porque é uma só, porque não tem ensaio. E sofro, sofremos todos, porque o mundo também pode ficar bem medíocre e eu me nego a essa estreiteza. Obrigada Saja por tudo que aprendi com você, pelo nosso encontro. Que pena que não pude dizer isso tudo olhando nos seus olhos e te dando um abraço. Que honra ter encontrado você, um mestre. Que você encontre a luz mais pura, que é disso que somos feitos, você sabe. Luz. Luz. Luz pra você, Luz pro Boechat, pro Caio, pros meninos do flamengo, do Vidigal, da Rocinha, do Rio de Janeiro, de Brumadinho, Luz para as mentes do nosso país. E vamos combinar de ninguém mais morrer, porque nosso coração já não aguenta mais. Obrigada, meu querido Saja, siga em paz.

1.1.19

2019

paz na incerteza
força no coração

27.9.18

Cosme, Damião e Crispina

Hoje é dia de Cosme e Damião e por isso quero contar essa história. Como eu nasci em setembro, minha mãe, como é tradição na Bahia, resolveu fazer uma promessa: oferecer caruru no dia do meu aniversário, até que eu completasse 15 anos. E assim foi. Todos os anos, um grupo de mulheres ia lá pra casa preparar a comida pro santo. Pouco antes da festa, eu saía pelas ruas com minha mãe para convidar sete crianças mais pobres para comer comigo. Chegando em casa, uma esteira grande de palha era estendida, eu servia todas as crianças e depois sentava pra comer junto com elas. Caruru, vatapá, arroz, galinha de xinxin, pipoca e caramelo de mel. Lembro que não gostava muito de caruru na época, mas tinha que comer nem que fosse uma colher. Tirando esse detalhe, eu sempre gostei muito de fazer esse pequeno ritual, achava que estava fazendo uma coisa importante. Geralmente durante a refeição - e esse era o melhor momento - minha mãe deixava de ser minha mãe e virava um erê, a Crispina. Eu achava aquilo muito engraçado e um tantinho assustador (e se minha mãe não voltasse mais?), mas adorava ver a Crispina/minha mãe falar igual a uma criança pequena, me pedir pra colocar mel na sua mão e depois lamber. A parte que eu mais gostava - e a que mais achava estranha - era quando Crispina passava os recados, coisas que eu depois tinha que falar pra minha mãe. Eu escutava tudo com muita atenção, as vezes ela repetia pra ver se eu tinha entendido direito. Era a Crispina/minha mãe mandando recado para minha mãe/mãe. E eu era a mensageira desse canal misterioso. Lembro do meu pai, médico, sempre meio cético, encostado na porta, observando tudo de longe. Depois ele dizia: isso é coisa da nossa cabeça, a gente não conhece nem 10% do nosso cérebro. 
Eu acho que foi ali que comecei a me formar como atriz. Minha mãe era a Crispina que era minha mãe. Isso não é maravilhoso? Não é esse o paradoxo do ator? Ser e não ser, eis a questão. Meu pai era o observador distante, aquele que duvida de tudo. Hoje, quando estou atuando, me sinto um pouco no papel da minha mãe e do meu pai, sou observadora e observada, ao mesmo tempo. Esse também é um estado que tenho praticado na yoga, mas aí já é uma outra história. 
Depois dessa refeição/ritual, a Crispina ia embora, os outros convidados iam chegando e a festa continuava. Eu passava todos os recados e orientações da Crispina/minha mãe para minha mãe/mãe. Quando acabava a festa, lá íamos nós, eu e minha mãe/mãe procurar um matinho bem verde numa encruzilhada para fazer a oferenda, conforme Crispina havia dito. Era um momento muito especial, lembro de sentir meu corpo vibrando. Missão cumprida.
Essas memórias são muito doces na minha vida. Hoje amanhecei com elas muito vivas dentro de mim. Me sinto muito grata por ter experienciado tudo isso. Obrigada mãe, obrigada pai. Obrigada Crispina, sinto você sempre perto de mim. Você nunca foi embora, nunca irá, eu sei. 
Que toda a doçura e alegria dos erês abençoem nosso Brasil hoje. Somos feitos desse pó luminoso, desse mistério sincrético e queremos que essa mestiçagem seja verdadeiramente respeitada. Não só os brancos, não só os cristãos, não só os homens, não só os héteros. Todos. Todas. Todes. Todxs. Verdadeiramente respeitadxs. Vai Brasil, nós podemos, nós temos essa força e essa alegria.

4.6.18

Conversa com Sebá na hora de dormir

- Mãe, na época dos dinossauros, você existia? 
- Não filho. 
- Mas existia o homem das cavernas, né? 
- Acho que nem existiam seres humanos nessa época.
- Mas onde você estava na época dos dinossauros?
- Eu não existia ainda!
- Eu sei, mas onde você estava antes de você existir? Na barriga da sua mamãe?
- Não porque minha mãe também não existia ainda. 
- Mas então ONDE você estava? 
- Ah filho, não sei...Eu acho que eu era estrelinha aí eu virei gente. Acho que é assim. 
- Então a gente nunca acaba?
- Não sei filho, acho que não acaba, mas se transforma. 
- Então eu nasci aí vou virar estrelinha aí depois vou nascer de novo e depois vou virar estrelinha de novo, e aí a gente não acaba. Êeeeeeeee! Eu adoro viver!

1.5.18

O Mistério

- Mãe, quando eu morrer, eu vou sobreviver?
- Como assim, filho?
- Depois que eu morrer, eu vou continuar vivendo?

21.3.18

do desencontro

Ela estava atravessando a rua quando ele atravessou seu pensamento.
O sinal abriu, 
o taxi passou,
o tempo parou.
Ela ouviu um grito, ele chamava o seu nome.
Quem iria resgata-la ali no meio daquela tarde,
naquela hora em que nunca se sabe o que fazer?
O sinal fechou, 
o dia nublou.
Ele chamou novamente, mas ela não conseguiu responder.
Estava sozinha demais pra ouvir.

24.11.17

O que a gente pensa quando a gente está pensando

Sebá- Mãe, o que você está pensando?
Mãe - Huuum, estou pensando agora que seu tênis é lindo. (mas na verdade eu estava pensando que os pés dele estão muito virados pra fora, talvez tenha que ver isso com o médico). E você, Sebá, tá pensando em que?
Sebá - Eu tô pensando... ... que quero morar com meu amigo José. E você, Ceci?
Ceci - Eu tô pensando em o que é que a gente diz quando alguém pergunta o que a gente tá pensando.



23.11.17

Nuvem-chão

- Mãe, eu queria deitar numa nuvem... ... mas a nuvem não aguenta, porque a nuvem é tipo tinta branca, por isso que ela não aguenta.
- Deve ser, filho.
- Só se for uma nuvem-chão.

26.10.17

mais um

- Mãe, depois do infinito, vem o infinito mais um?

27.8.17

segredo é segredo

- Mãe, eu tenho um segredo com a Ceci.
- Ai, me conta, também quero saber.
- Não posso, porque se eu contar o segredo desacaba.

15.8.17

Deitados na rede da varanda, olhando pro céu

- Mãe, cadê a lua?
- A lua já está do outro lado do morro.
- E agora só têm as estrelas.
- Sim, têm muitas estrelinhas, o céu está limpo, olha!
- E tem o espaço, né?
- É, filho.
- As estrelas são do espaço?
- As estrelas estão no espaço.
- No espaço sideral?
- Sim, no espaço sideral.
- Mas o espaço sideral fica depois do espaço. 
- O espaço sideral é infinito, filho. 
- Mas o infinito é maior do que o espaço sideral, mãe. O infinito é grandão.  

21.6.17

Os buracos da eternidade

Queria abrir os buracos quando eu desejasse, mas eles não se abrem quando eu quero, eles não me obedecem, eles não são meus. Eu simplesmente caio neles, na maioria das vezes, quando estou distraída. Faço muito esforço e caio sempre por acaso.

14.6.17

Os passos

Tomo um chá e vou ao cinema. No caminho já sinto a estranheza. Pessoas se movendo em velocidades diferentes, tudo carecendo de sentido. Hoje estou tentando fazer literatura com minha vida e escrevo coisas canalhas. Mas não encontro nada nas palavras, que depois vou ler e achar ridículo.
Por que o filme não começa?
Quero entrar logo num mundo que não é meu. Quero esquecer que minhas costas doem.
Quero ter alguma linearidade. Não viver mais nessas horas vagas, quero ter o que fazer, pra onde ir, quem encontrar.
Os passos são lentos e vem uma vontade estrondosa de empurrar as coisas. Pra depois.
Os próximos passos. Os passos. As próximas horas. As horas.
Todo o mundo fazendo o mesmo. Cavando, sem descanso, e contando com a sorte, com a fé, com o gênio, com os contatos. 
Vou entrar no outro mundo pra ver se acho um respiro para a vida daqui.