9.4.17

Cada um do seu jeito

Sebá - Mamãe, guarda isso no meu ormário?
Ceci - Não é ormário, é Ar-mário.
Sebá - O seu é armário, Ceci. O meu é Or-mário. 
Ceci - Mas o certo é armário.
Sebá - Cada um fala do jeito que quer, tem que respeitar, né?!

6.4.17

Conversa com Sebá aos 4 anos

- Mamãe, sabia que quem tem 4 anos já tem 5?
- Não.
- Foi meu amigo Chicão que me disse.
- E como é isso, filho?
- É assim ó, se eu já fiz 4 anos, então eu já vou fazer 5 anos. Aí, eu já tenho 5. Entendeu?
- Sei… mas você tem 4 ou 5 anos?
- Eu já tenho 5 anos, né? Porque eu já fiz 4 anos. Agora você entendeu?

23.3.17

Frase do Sebá aos 4 anos

- Boa noite, meu coração!
- Boa noite, minha coraçã!

20.2.17

Carnaval tem todo ano

Eu digo que não estou animada. 
Que esse ano quero silêncio e sossego. 
Mas basta ouvir um batuque qualquer numa esquina,
que eu me ofereço toda.

17.2.17

Hora de dormir

Mãe - Qual vai ser a historinha hoje?
Ceci- Não tenho a menor ideia.
Sebá- Eu tenho a menor ideia! Deixa que eu escolho.

13.2.17

Não sabia não?

- Filho, o que você fez hoje no primeiro dia de aula?
- A gente jogou, desenhou e pinturou.
- Pinturou?
- É mãe, fazer pintura é pin-tu-rar. Não sabia não, é?

20.1.17

Eu gosto mais da ideia de ser uma escritora do que de ser uma escritora.

10.12.16

Conjugações contemporâneas

Eu acho
Tu acreditas
Ele curte
Nós temos mais de 100 likes
Vós odiais
Eles descordam.



10.9.16

Frase do Sebá aos 3 anos

Tem que ser um pouquinho muito e um pouquinho pouco, né mãe?

16.8.16

Assim é

Quando estava grávida, nas minhas duas barrigas, percebia pessoas, muitas pessoas, olhando pra mim com um certo desprezo (cuidadosamente escondido) e dizendo nas entrelinhas uma espécie de "coitada, vai acabar com a carreira" ou vai "atrapalhar a vida profissional" ou ainda, "para uma atriz é mais difícil, muda o corpo, muda tudo". E eu também estava cheia de dúvidas e conflitos (porque ficar grávida não é chegar no paraíso), apesar de ter desejado muito ser mãe. Eu tinha medo de "perder minha liberdade", de não viver mais a vida-lôka que eu tanto gostava, de me afastar dos amigos, de não ser capaz de cuidar, de não ter o dinheiro necessário, tive muito medo de perder oportunidades de trabalho, de viagens, etc, etc, etc. Curiosamente, também vejo o mesmo tipo de desprezo dirigido às mulheres que chegam aos 35, 40 e, por algum motivo ou desejo, não têm filhos. "Coitada, vai ficar sozinha na vida", "nunca vai saber o que é o verdadeiro amor", "não consegue", "deve ter algum problema", e por aí vai. Há cobranças peçonhentas por todo lado. E a vida passando e mudando sempre, com ou sem filhos, porque assim é. A vida passa. Uma coisa eu aprendi: liberdade, a gente cria. E vida, a gente inventa. Tudo é criação.  E viva o feminino.

13.7.16

Conversa com Sebá aos 3 anos

- Mamãe, vamos fazer um incêndio?
- Quê???
- Aquilo que a gente fez ontem.
- Ah! Vamos acender um incenso?
- Sim! Pra casa ficar bem limpinha.

4.5.16

Desintegrar-se

Deitada, corpo solto no chão. Camadas do corpo físico - sangue, órgãos, ossos, esqueleto. Reconstituir para depois ir tirando. O sangue esparramado no chão, os órgãos saindo do corpo, o esqueleto flutuando. Então os ossos vão se soltando e se perdendo e sobra apenas uma memória. A memória do que já foi. 
(tudo de olhos fechados) 

Paris, 27/10/05 (Não Olhe Agora - Coletivo Improviso)

3.1.16

Resoluções para um Novo Ano:

- Achar o lugar do reencontro; 
- Mudar a aparência por dentro; 
- Unir os pontos (cabeça, coração, pé no chão); 
- Viver numa escala maior; 
- Desdefender-se.

2.2.15

Mudanças

Você leu, em algum o lugar, aquela frase de Ghandhi e você pensa que quer ser a mudança que você quer ver no mundo. Você reduz drasticamente o seu consumo de carne e só come animais em ocasiões especiais. Você tenta diminuir o lixo que você produz e se frustra o tempo todo porque você consegue muito pouco. Você procura reciclar todo seu lixo. Você conversa com a síndica do seu prédio, você entra no site da Conlurb, você pesquisa em vários sites, você lê sobre o assunto. Você percebe que reciclar seu lixo é bem mais fácil do que você imagina. Você carrega uma sacola dobrável dentro da sua bolsa quando você vai às compras. Você recusa sacos plásticos e embalagens para presentes. Você recusa as segundas vias do cartão e todo o papel que você não ultizará depois. Você usa, na maioria das vezes, fraldas de pano no seu bebê. Você percebe, na prática, que não dá tanto trabalho assim. Você, inclusive, economiza dinheiro usando fraldas de pano no seu bebê. Você não quer mais ter carro, você quer andar a pé, de bicicleta, de transporte público e de taxi. Você não quer mudar para um apartamento maior. Você quer ter cada vez menos coisas, você acha que você já tem demais. Você está enjoada de tantos vestidos, tantos sapatos, tantas bolsas, tantos batons. Você acha que isso deve ser por causa da idade, mas você se dá conta que você já pensava assim aos vinte. Você não quer colocar silicone depois de ter amamentado seus dois filhos. Você se acha gostosa. Você ainda não colocou botox, mesmo já tendo passado dos quarenta. Você pinta seus cabelos brancos com henna. Você ainda não se acha bonita com cabelos brancos. Você detesta ir ao salão de beleza e evita isso a todo custo. Por conta dessas "excentricidades", você ouve sempre os mesmos comentários: Você é "louca", você é "hippie", você é "filósofa", você é "artista". Você não escuta, mas você é chamada de "ecochata". Ou só de chata mesmo. Você deve ser um pouco de tudo isso, você não se importa. Finalmente, você não se sente melhor do que ninguém. Você chora. Você também quer ser amada. Você duvida. Você se irrita com muita frequência. Você perde a paciência, você se arrepende. Você fala demais. Você ainda quer mudar o mundo. Você se acha uma idiota por isso, você sabe que o mundo muda sozinho. Você tem consciência que você é irrelevante para o mundo. Mas você continua tentando. Você gosta de viver.

21.1.15

No set

Fazer um filme é como estar dentro de um outro filme. Tudo parece um sonho. Todas aquelas pessoas ocupadas passando pra lá e pra cá, conversas de pé de ouvido, trilhos, fios. Paredes e portas que dão em lugar nenhum. Um universo inteiro sendo criado e destruído diariamente. Quando estou num set sempre acho que, a qualquer momento, Fellini vai aparecer falando alto, interrompendo a concentração, vai chamar os atores e refazer a cena dez tons acima. Imagino Truffaut sussurrando subitamente no meu ouvido, me lembrando da ilusão de tudo aquilo, me seduzindo e me deixando confusa, porque afinal de contas eu não entendo bem francês. Já vi Bergman algumas vezes levando as mãos à cabeça, como se tudo ali estivesse em desacordo. Desperto desses devaneios rindo de mim mesma e desconfiando ainda mais dessas fronteiras entre ficção e realidade. E mesmo estando ansiosa, nervosa ou simplesmente em pânico com a iminência do "Ação!", me sinto feliz por estar fazendo parte daquele mundo à parte, que muitas vezes é mais intenso que a própria vida.

18.11.14

Frases da Ceci aos 6 anos


- Mãe, agora eu vou escrever com letrinhas de mãos dadas.

21.9.14

Teatro templo

O teatro é o meu refúgio, meu templo, sempre foi. É pra lá que eu vou quando preciso pensar, respirar, dançar. Quando preciso diminuir o ritmo artificial da "realidade". Quando preciso parar, contemplar, ter clareza. Ele é exigente e me quer sempre inteira e humilde. Me quer sempre generosa, compassiva, atenta. Ele me exige loucura e graça. Coloca minha vaidade no lugar certo. E eu gosto.

20.9.14

Manual de fazer trança

-  Mãe, sabia que eu já sei fazer trança no cabelo?
É só dividir em 3 capítulos e aí vai passando o cabelo, vai passando e passando e passando até formar uma trança.


18.4.14

Frases de Ceci aos 5 anos

- Mãe, sabe qual é o plural de hamburger? 
- Qual é?
- Xisburger!

2.6.13

Em 1 minuto:

- Apresente-se
- Exiba-se
- Desculpe-se
- Justifique-se
- Pergunte
- Implore

12.5.13

Enrolando pra dormir aos 5 anos

- Vamos dormir filha, já é tarde.
- Não mãe, não é tarde, já é noite.
- Tá filha, então já está na hora de dormir.
-  
Mãe, o Cristo virou estátua?

- Não Ceci, fizeram uma estátua do Cristo.
- O Cristo existe?
- De certa forma existe filha, existe no coração de algumas pessoas.
- Ele já morreu?
- Já, há muito tempo atrás. Agora, vamos dormir filha.
- E quando a gente morre vira estátua?
- Não filha, é que o Cristo foi um homem muito importante, que ensinou muita coisa legal, por isso é que fizeram uma estátua dele.
- Mãe, vc sabia que quando a gente dorme, os ossos ficam grandes e a gente cresce muito?
- Sabia Ceci, por isso que a gente tem que dormir, já está tarde filha, boa noite.
- Porque que adulto não cresce?
- Porque já cresceu tudo que tinha pra crescer.
- Você não vai mais crescer?
- Não filha. Vamos dormir. Boa noite.
- Mãe, porque existe pessoas baixinhas?
- Porque sim Ceci, existem pessoas baixas, altas, magras, gordas, muitos tipos diferentes.  Eu mesma sou baixinha, filha.
- Não mãe, mas eu falando daquelas mais baixinhas do que você. Bem baixinhas.
- Você falando de anão?
- É. Anão da Branca de Neve?
- É, anão é uma pessoa bem baixinha. Igual aos da Branca de Neve.
- Sabia que eu já vi um anão?
- Ceci, vamos dormir.
- Hoje eu muito faladeira.
- E muito perguntadeira. Agora vamos dormir filha.
- Mendingo existe?
- Existe filha, mendigo é uma pessoa que não tem casa, não tem trabalho, não tem dinheiro, aí tem que morar na rua, é muito triste.
- Mendingo... medigo... Mindingo...midigo...mindigo ... E porque que o mendingo não pega um dinheiro e faz uma casa?
- Porque não é fácil pegar um dinheiro assim...
- Mas ele podia pegar só um pouquinho emprestado.
- Devia ser assim mesmo Ceci, todo mundo devia ter casa. Filha, agora vamos dormir. Boa noite, meu amor.
- Mãe, quando a gente vira estrela tem que ficar assim (mostrando com o corpo) com o braço e a perna assim aberto?
- Tem filha. Vem cá meu amor, vamos dormir agora,vem.
- Mas mãe, a gente vai cansar de ficar assim lá no céu e vai cair!!!
- (Rindo) Mas a gente não vai cansar não filha, quando a gente vira estrelinha, a gente fica leve, muito leve e nunca cansa.
- É verdade?
- ... ... ...
- Sério mãe?
- É filha, a gente fica leve, leve ... e brilha o tempo todo.
- Aaaaaaah... Agora vamos dormir mãe, já é de noite.
- Boa noite meu amor
. Eu te amo muito.
- Boa noite mãe.
  

28.1.13

Conversa com Ceci aos 4 anos

-  Filha, o que vc fez hoje a tarde?
- Ah, não sei mãe. Essa vida é muito esquecível...

4.10.12

Pequeno detalhe

Conversa do pai com a filha:
- Filha, você é muito detalhista.
- (Ceci sorri)
- Vc sabe o que é uma pessoa detalhista?
- Sim.
- O que é um detalhe, Ceci?
- (Ceci para, olha, sorri, fica meio sem graça e solta pelo canto da boca)  
   Um detalhe é quando as coisas são fininhas.

20.9.12

Palavras de PINA

"Quando o movimento não é o bastante, tragam as palavras. Quando as palavras não forem suficientes, traga o movimento de volta."
pina bauch

19.9.12

Nossa alegria é ampliar-se, não importa se pelo ganho ou pela perda.

22.3.12

LINHAGEM



da minha mãe:
que me ensinou a atravessar a rua sozinha (e me salvar).
pra minha filha:
que me ensina a observar o mundo amorosamente.

20.3.12

poeminha rápido




ser e vir a ser
a ser vir e ser
vir e ser
a ir e vir
ser e ir
virar ser

19.3.12

Frases de Ceci aos quatro anos

- Você percebeu que aquele lugar está lotado de vazio?

18.3.12

Conversas de Ceci aos quatro anos

- Mamãe, você é muito engraçadinha!
- Você também é muito engraçadinha filha.
- Não. Eu não sou engraçadinha não.
- Hummm... então você é séria?
- Não. Eu também não sou séria não... Eu sou feliz!

16.3.12

antes que isso vire um blog abandonado


Tenho demorado tanto pra atualizar esse blog, que cheguei a pensar que ele tinha virado disquete. Uma coisa exótica, retrô, old school.
Mas como sempre fui meio antiga mesmo, então tudo bem.
Continuo fiel a minha proposta inicial: liberdade. Um espacinho pra não precisar fazer alguma coisa, pra não precisar ser alguém. Só isso. (digo pra mim mesmo, querendo me convencer, já achando essa ideia um tanto paradoxal).
Pra que contar o tempo? Escreverei quando quiser, sempre. Se estou sem vontade de me atualizar, fico velha mesmo.

7.11.11

Frases de Ceci aos três anos

- Ai mãe, você tá desbagunçando tudo!

15.10.11

Autotraição

O que estou procurando é não me trair. Porque quando me sinto traída por mim mesma, aí sim eu fracasso. É um sentimento inexorável, muitas vezes ambíguo, fica latente no peito, muito difícil de lidar. Mas precisa ser digerido lentamente, dolorosamente, e quando vem enfim o perdão próprio, humildemente visto-me da minha condição humana demasiada humana e sigo - alegre - adiante.

5.10.11

Autoficção

Outro dia li numa reportagem sobre o termo autoficção. Se trata de historias autobiográficas, mas com alguma (ou muita) invenção, onde não se sabe, deliberadamente, o limite entre a confissão e a criação. O depoimento verdadeiro e falso, ao mesmo tempo. Gostei. O que escrevo, ou pretendo escrever, não pode estar separado da minha vida, das minhas experiências. Só posso escrever sobre aquilo que conheço. Será? Escrevo e imediatamente duvido. A escrita também é uma porta para o desconhecido e para a liberdade. Minha vida é pouca e besta, portanto faço das memórias, dos sentimentos, das angustias, algo inventado, um buraco maior do que meu umbigo. Tudo é sempre modificado pelo tempo, pelo momento, pela lente de quem vê, pelo ambiente, pelo calor e pelo frio.  Minto descaramente pela beleza. Prefiro falar de essências, de perfumes. De coisinhas frágeis que se perdem na imaginação de quem escreve e de quem ler. Invento dores e amores. Imagino um passado e subverto-o. Faço existir um não tempo e um não espaço. E é tudo verdade verdadeira. Esse é meu poder e meu regozijo. Crio minhas histórias e meus personagens assim como imagino minhas entranhas - não posso vê-las, mas sei que estão bem vivas lá dentro. Invento minha própria jornada, subo ladeiras e desço montanhas, fico na beira do abismo, sou heroína e algoz, sou protagonista da minha vida/estória.

6.9.11

Inaugurando o Pijaminha

- Mamãe, o que é inaugurar?
- Inaugurar é... quando a gente faz uma coisa pela primeira vez.
- Ah! É um trocinho que faz barulho?

5.9.11

                       - Mamãe, não se esqueça de lembrar:
                         Nós temos que brincar!

4.9.11

Frases de Ceci aos três anos

                      Eu vou esperar muito tempo atrás.

1.9.11

                                        Trabalhando para trabalhar

20.6.11

Vida acordada

Às vezes acho que sou uma mulher à beira da morte, observando a vida em retrospecto. Os fatos da minha vida são, de fato, a minha memória. Como se minha vida acordada fosse apenas as memórias dessa mulher, que sou eu mesma, à beira da morte.

19.6.11

- O que você entende quando você não entende a língua que se fala?

10.6.11

Vida é filme, vida é sonho

-  Agora estou me preparando para filmar. Sonhei com você na noite passada. Eu estava confusa, no meio de ruas estreitas e esfumaçadas e você aparecia, tranquilo. Não dizia nada, só observava e sorria. Acordei angustiada, sentindo falta de alguma coisa impalpável. Fazer cinema é mais solitário do que fazer teatro.

- Fazer cinema é isso. Pense que esse impalpável vai ser capturado pela câmera. E que algo palpável ficará para o espectador, fruto desse impalpável.

3.6.11

Nota de esclarecimento

A quem possa interessar:
Este espaço é regido pelas regras do deleite e pela cronologia do coração.

1.6.11

Frases de Ceci aos três anos


- Mamãe, essa luz tá muito barulhenta!

31.5.11

O vazio de Cuba


Quando viajei pra Cuba, em 2009, a primeira sensação que tive, ao sair nas ruas de Havana, foi de angústia. Algo parecido com um domingo, quando o dia está ensolarado e você acha que tem a obrigação de aproveitá-lo, mas, no fundo, quer se enfiar na cama e não acordar nunca mais. Era um aperto não identificado, um não-sei-o-quê que entristecia.

Continuei andando e, aos poucos, fui me dando conta que, mesmo estando numa cidade grande, não havia trânsito intenso, nem engarrafamento, nem muito barulho - porque simplesmente não existem muitos carros nas ruas (e estradas) de Cuba. O olhar foi se expandindo e percebi que também não havia outdoors e nenhuma propaganda, salvo alguns anúncios estatais – pouco ostensivos. Começei a observar as lojas, as pessoas, e nenhuma marca conhecida, nenhuma logo de perfume, banco, roupa, bolsa, pasta-de-dente ou cerveja. Parecia até chato. Mas não era.

A sensação inicial de sufoco foi dando lugar a uma espécie de clareza mental, estava respirando melhor. Havana - assim como os outros lugares que visitei na Ilha - tinha espaços vazios, silêncios. Tudo tinha um ritmo próprio. Esse vazio - que antes me incomodava e que, precipitadamente, já estava nomeando de tédio - foi dando lugar a uma alegria genuína e leve. Meu olhar, agora, devaneava e começei a enxergar cores, nuances, texturas e formas inteiramente novas. Um conforto, como se estivesse em casa. Aliás, Havana lembra muito Salvador, onde nasci.

Com isso, não digo que a situação lá é boa, porque não é. A falta de liberdade de expressão é ainda pior do que o excesso de informação e de lixo que o capitalismo/liberalismo nos entuba, queiramos ou não.

Essas memórias, no entanto, me fizeram lembrar de uma passagem do livro Animal Tropical, do cubano Pedro Juan Gutiérrez :

“A única coisa que posso fazer sempre, onde for, é construir meu próprio espaço. Não esperar nunca que alguém me dê a liberdade. A liberdade tem de ser construída por nós mesmos. Como? Cada qual tem de descobrir por si só. Minha liberdade eu construo escrevendo, pintando, mantendo a minha visão simples do mundo, espreitando na selva como um animal, impedindo as intromissões na minha vida privada. O essencial para o homem é a liberdade. Interior e exterior. Atrever-se a ser você mesmo em qualquer circunstância ou lugar. A liberdade é como a felicidade: não chega nunca. Nunca se tem completa. É só um caminho. A gente caminha atrás da liberdade e da felicidade. E assim se vive. E só a isso que se pode aspirar. Faz alguns anos, e durante muito tempo, minha vida andou presa a conceitos, a preconceitos, a idéias preconcebidas, a decisões alheias. Aquilo era autoritário e vertical demais pra mim. Não conseguiria amadurecer assim. Vivia numa jaula, como um bebê que protejem e isolam pra que jamais amadureça seus músculos e desenvolva seu cérebro. Tudo desmoronou diante de mim. Dentro de mim. Com muito estrondo. E fiquei a beira do suicídio. Ou da loucura. Tinha de mudar alguma coisa no meu interior. Do contrário podia acabar louco ou cadáver. E eu queria viver. Simplesmente viver. Sem pressões. Talvez algum dia feliz. E reduzir as angústias. Isso é imprescindível: reduzir as angústias. Quem sabe seja só uma questão de ponto de vista. É preciso estar plenamente presente onde a gente se encontra, e não escapar sempre”.

30.5.11

Procurando um contorno


Um dia falei no ensaio:
- Gosto de trabalhar com o impossível.
Um segundo depois:
- Por que eu disse isso? Que loucura! Só posso trabalhar com o que é possível.
E assim vou seguindo, nessa lacuna entre o possível e o impossível.
E é nesse lugar que me encontro agora. Não tem tempo, não tem espaço e não há limite.

29.5.11

A escuta


O que me interessa - ela disse - é me colocar no lugar do outro, o tempo todo.
Ah, mas é difícil - retrucou ele - porque a gente quer existir primeiro, não quer?
Silêncio.
No entanto - ambos escutaram - é impossível existir sem o outro.
E saíram pra jantar.

28.5.11

Se eu tivesse certeza, eu não falaria.
Como não tenho, então falo.

5.1.11

Perguntas de Ceci aos dois anos

- Mamãe, você fica presa no teatro?
- Não meu amor, no teatro eu fico livre... livre!

15.9.10

Frases de Ceci aos dois anos

                            - Senta aqui do lado do eu.

14.9.10

Frases de Ceci aos dois anos

- Amanhã papai vai chegar uma saudade.

13.9.10

Frases de Ceci aos dois anos


- Mamãe, o vento desmaiou a árvore.

10.9.10

em crise

crise de identidade crise de nervos crise agrária crise conjugal crise de garganta crise existencial crise de adolescência crise diplomática crise financeira crise renal crise da meia idade crise de raiva crise de mão-de-obra crise amorosa crise política crise asmática crise parcial crise profissional crise epiléptica crise moral crise econômica crise patológica crise com o filho adolescente que também está em crise crise cardíaca crise religiosa crise internacional crise de ansiedade crise familiar crise evolutiva crise dramática crise social crise hepática crise histórica crise global crise de abstinência crise da moda crise generalizada toda crise é criativa.

2.9.10

em algum lugar do passado

Tempestade:
Acontece o que não se espera
e o coração desaba.
A chuva caindo lá fora,
o coração em prantos, em pedaços,
chove aqui dentro também.

Calmaria:
Aqui estou, no cenário já conhecido,
livros, computador,
noite, luz pálida,
desejos, névoa
e uma vontade louca de fazer o mundo virar
e ficar de pernas abertas esperando o amanhecer.

19.8.10

Perdi a hora. Perdi a prova, perdi a consulta, perdi a minha carteira. Perdi a clareza, perdi a fome, perdi o curso da história. Perdi o sono. Perdi a razão. Perdi o pai, a mãe, os filhos, perdi minha casa, perdi minhas cartas, perdi a visão, perdi a identidade, perdi tudo. Perdi meu brinco. Perdi a sessão. Perdi meu celular. Perdi o sol, a praia, os amigos. Perdi a festa e perdi a noite. Perdi o bonde. Perdi a vontade, perdi o interesse, perdi o jogo e perdi a batalha. Perdi de vista. Perdi o fio da meada. Perdi o prumo, perdi o rumo, perdi a função. Perdi a aliança, perdi o emprego, perdi a chance, a oportunidade, perdi na loteria. Perdi a cabeça, perdi a estribeira. Ficou perdida. Se perdeu.

6.7.10

Enfim

Dias falando sobre o mesmo assunto, a história repetida cem mil vezes, os detalhes, as memórias, o esquecimento, a história recontada e requentada, o que falha, a ficção e a fantasia que se cria sempre que se conta, todas as relações esmiuçadas e as dores sentidas novamente, ressentimentos revelados, mágoas agitadas para o rio voltar a correr.
Na saída do túnel o mesmo buraco e a mesma pergunta e algumas lágrimas e o monólogo que não cessa e o conforto que não vem.
Chegar em casa e tentar organizar os fatos, como se eles ainda existissem. Elaborar listas e preparar o futuro, sem deixar que ele volte a ameaçar, a assustar, a desassossegar.
E tudo isso para entrar na sala de estar e descobrir que ela está vazia, sem móveis, sem quadros na parede, sem espelhos. Apenas algumas fotografias espalhadas pelo chão. A janela está aberta e uma brisa leve e fria desarruma o ambiente. Tudo isso não passa de um sonho, ela pensa. Mas ainda assim, ela sente os pés no chão. E vai até o quarto.
Tira a roupa e procura uma toalha nova para que possa se enxugar depois do banho. Procura aquele olhar. Procura o silêncio perdido. Procura o que está perto e o que está longe. Não sei onde isso vai dar, ela pensa e sorri. Com os cabelos molhados, ela deita na cama e dorme. O corpo já não treme mais, a febre já abaixou e o que restou foi apenas a descoberta.

5.7.10

O Caminho de Williamsburg - Brooklyn


       Ah! Essa mania de querer ser um homem livre.

12.6.10

Agora, por exemplo

Agora, por exemplo. Meu estômago aperta, meu diafragma está dolorido, tem uma tensão no lado esquerdo do pescoço, sinto vontade de chorar, vontade de dormir mesmo sem estar com sono. No entanto, olho em torno e meu marido descansa no quarto, minha filha brinca no outro, o dia está fresco, ouço buzinas ao longe, ouço passarinhos mais perto, a casa está limpa depois da faxina. Tudo está bem. Digo pra mim mesma: tudo está bem. E como um mantra repito, querendo me convencer: tudo está bem.
Porque, então, algo está sempre prestes a desmoronar dentro de mim?

11.6.10

alguma coisa acontece

Ou já passou.
Ou ainda virá.

10.6.10

Eu, perdida de amor, queria viver sem arestas, entregue como um vagabundo, presente em todos os momentos, sem passado e sem futuro.
Eu, perdida de ilusão, com três pernas e seis braços, queria andar pelo mundo, sem saber como caminhar.
Eu, estranhamente feliz.

9.6.10


Entro na minha terra devastada,
o sol está a pino e tudo em torno é miragem.
Estou precisando chover.

8.6.10

Tema pra um conto


Vestida de lágrimas, ela sai pra dançar.
Não, fica melhor no passado:
Vestida de lágrimas, ela saiu pra dançar.




29.5.10

DECLARAÇÃO DE AMOR

Arnaldo Antunes é o Roberto Carlos da minha vida.

15.5.10


fui muito bem sucedida.

Já fui muito bem fracassada.

Estou muito bem vivida.
Estou muito bem viva.
Estou muito viva.
Estou bem viva.
Estou viva.
Viva!